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O Treinamento Assertivo

O material a seguir é a compilação de um artigo e do trabalho acadêmico de Ana Monteiro Grilo. Seu conteúdo foi utlizado como base para o módulo de assertividade de nosso treinamento. Para consultar as referências acadêmicas do texto e ler o artigo original, acessar a seguinte referência:

GRILO, Ana Monteiro. Relevância da assertividade na comunicação profissional de saúde-paciente. Psic., Saúde & Doenças [online]. 2012, vol.13, n.2 [citado  2019-12-11], pp.283-297. Disponível em: <http://www.scielo.mec.pt/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1645-00862012000200011&lng=pt&nrm=iso>. ISSN 1645-0086.

1. Origens do treinamento assertivo

Em 1971, Lazarus definiu assertividade como a capacidade para recusar e elaborar pedidos, pedir favores, expressar sentimentos negativos e positivos e iniciar, continuar e terminar uma conversa comum. Cinco anos mais tarde, Lange e Jakubwski (1976) consideraram a assertividade como a defesa de direitos pessoais e a expressão de pensamentos, sentimentos e crenças de forma direta, honesta e apropriada, de modo a respeitar os direitos das outras pessoas. Ao longo do tempo, foram surgindo outras definições de assertividade.

Contudo, todas elas partem da premissa que os indivíduos têm direitos de afirmação básicos que devem exercitar. Aliás, foi precisamente o reconhecimento, por parte dos terapeutas do comportamento, Salter (1949) e Wolpe (1958), de que alguns indivíduos tinham problemas específicos em fazer valer os seus direitos, e que esta incapacidade conduzia a inadaptação por parte do indivíduo, que deu origem à comunicação assertiva.

No seu livro Conditioned Reflex Therapy, Salter (1949) recorreu ao condicionamento clássico para explicar os problemas que algumas pessoas apresentavam no relacionamento interpessoal1. A falta de assertividade resultava, assim, de um condicionamento inibitório da expressão de emoções e conduzia a inadaptações na vida do indivíduo. Wolpe (1958) retomou as ideias de Salter, mas restringiu a aplicação do comportamento assertivo ao tratamento da ansiedade não adaptada, que, em sua opinião, resultava de uma resposta condicionada e poderia ser tratada pela técnica da inibição recíproca. A resposta assertiva surgia, assim, como um valioso exemplo de uma resposta antagónica da ansiedade, funcionando como inibidora desta última.

Inicialmente, o treino assertivo foi aplicado por autores como Wolpe e Lazarus (1966), exclusivamente no âmbito da terapia individual. Mais tarde, ainda dentro da área da psicologia, o treino passou a ser implementado com sucesso em contexto grupal, por exemplo, com pacientes psiquiátricos graves e alcoólicos. Progressivamente, as intervenções grupais foram sendo introduzidas em populações não clínicas. O desvincular do treino assertivo do contexto psicoterapêutico permitiu a sua entrada noutras disciplinas, nomeadamente, nas ciências empresariais, onde a assertividade se tornou mesmo uma “moda”, educação e marketing.

A assertividade foi, desde logo, considerada uma competência que pode ser aprendida e não um traço de personalidade. Um grande número de factores, entre os quais, a punição, o reforço, a modelagem, a falta de oportunidade, os padrões culturais e as crenças pessoais, assim como a incerteza quanto aos direitos do próprio contribuem para o déficit de assertividade. O treino assertivo pressupõe o desenvolvimento de duas competências fundamentais: coordenação de perspectivas entre a pessoa e o interlocutor e flexibilidade. Esta última visa modificar as próprias crenças depois de considerar as do outro, ou mesmo integrar as do interlocutor nas suas.

O treino na área da comunicação assertiva foi introduzido e considerado útil antes do conceito de assertividade estar definido com alguma precisão e rigor. Efetivamente, só no final dos anos 70, alicerçados nos direitos de afirmação pessoal, Galassi e Galassi (1977), por um lado, e Jakubowski e Lange (1978), por outro, conceptualizaram o treino assertivo de forma estruturada e como entidade separada.

DIREITOS DE AFIRMAÇÃO PESSOAL

  1. Autopromover a dignidade pessoal
  2. Expressar sentimentos
  3. Dizer não sem se sentir culpado
  4. Fazer erros se decidido a corrigi-los
  5. Pedir informação antes de responder
  6. Criticar sem se sentir culpado
  7. Ser respeitado
  8. Não funcionar sempre no máximo
  9. Fazer pedidos
  10. Ter tempo de reflectir antes de decidir
  11. Mudar de opinião

Os fundadores do treino assertivo constatam que pode não ser suficiente acreditar nos direitos pessoais ou aprender uma resposta assertiva específica. Neste sentido e influenciados pelo advento das terapias cognitivas, em particular, da terapia racional emotiva de Albert Ellis (1962), introduziram os aspectos cognitivos no mesmo (figura 1).

Figura 1. Modo como as crenças influenciam o comportamento assertivo.

Ellis preconizou que os indivíduos conceptualizam a realidade por intermédio das crenças que estes possuem acerca dos acontecimentos. As consequências emocionais e comportamentais advêm, assim, da natureza e do conteúdo das crenças, e não do acontecimento em si. Em oposição às crenças racionais, as crenças irracionais pelo seu carácter absolutista (e.g., “Tenho que…”, “Devo…”) estão na origem de comportamentos inadequados de que a falta de assertividade é exemplo. Com base neste pressuposto, a disputa racional de crenças irracionais relativas quer aos direitos e responsabilidades, quer às possíveis consequências do comportamento, passaram a fazer parte integrante dos programas de treino assertivo.

A mudança de crenças irracionais envolve a sua identificação, disputa ou interrupção das mesmas e posterior adopção de uma crença nova ou substituição por uma mais adaptativa.

No essencial, o treino assertivo tem início com a identificação das áreas em que existe déficit assertivo (e.g., relações com chefias), analisa os fatores que impedem o indivíduo de se expressar de forma adequada (e.g., desconhecimento dos direitos de afirmação, crenças irracionais) e opera sobre esses fatores (e.g., modificação de crenças irracionais). O ensaio das respostas assertivas nas áreas identificadas como problemáticas, e posterior análise das suas consequências, decorre inicialmente em meio protegido (e.g., com o terapeuta). Só posteriormente o indivíduo tenta aplicar a aprendizagem realizada em situações reais.

Para Alberti e Emmons (2008) o treino assertivo tem como principal objetivo mudar a forma como o indivíduo se vê a si próprio, aumentar a sua capacidade de afirmação, permitir que este expresse de forma adequada os seus sentimentos e pensamentos e, posteriormente, estabelecer a autoconfiança.

Mais detalhados, Hargie e Dickson (2004) elencaram várias funções do treino, entre as quais destacamos:

  • ajudar o indivíduo a assegurar que os seus direitos não serão violados;
  • reconhecer os direitos dos outros;
  • comunicar a sua opinião de forma confiante;
  • recusar pedidos irrazoáveis
  • fazer pedidos razoáveis;
  • lidar eficazmente com recusas irrazoáveis;
  • evitar conflitos agressivos desnecessários e
  • desenvolver e manter um sentido pessoal de eficácia.

O sucesso do treino assertivo, nas mais distintas áreas do saber, pode justificar-se pelo facto da essência da comunicação assertiva (i.e., afirmação de direitos pessoais respeitando os direitos do outro) ser culturalmente desejável ou politicamente correta e, portanto, facilitadora da convivência civilizada em sociedades democráticas. A participação em treinos encerra ainda outras vantagens de âmbito mais pessoal, nomeadamente, aumento de sentimentos de autoconfiança, reações positivas dos outros, e diminuição quer da ansiedade nas situações sociais, quer das queixas somáticas do indivíduo.

2. Estilos de resposta

Para a compreensão do conceito de assertividade, é necessário distinguir este estilo de resposta de outros estilos, nomeadamente as respostas passivas e as respostas agressivas. Estes três estilos de respostas tem sido conceptualizados como pontos de um contínuo, diferindo, portanto, mais em termos de intensidade do que de tipo). A resposta assertiva forma o ponto médio desse contínuo e é, habitualmente, a resposta mais apropriada.

2.1. Resposta passiva

O estilo de resposta passivo caracteriza-se pela expressão de pensamentos, sentimentos e preferências de forma indireta ou implícita, ou mesmo pela ausência da expressão dos mesmos. Ao não conseguir expressar de forma direta e honesta as suas necessidades, a pessoa falha na defesa dos seus direitos, permitindo que estes sejam facilmente ignorados pelo seu interlocutor.

As respostas passivas podem incluir: hesitações, evitamento de determinados assuntos e demonstração de ansiedade, frases longas e desconexas, justificações repetidas, muitos pedidos de desculpa, expressões de autodepreciação (e.g., “Eu nunca devia ter…”) e expressões que anulam as suas necessidades (e.g., “Eu podia ter feito…”).

O objetivo destas respostas parece ser agradar aos outros e evitar conflitos a qualquer custo. Na origem das respostas passivas encontram-se diversos fatores, tais como: medo das consequências negativas da expressão direta da sua opinião, percepção de ameaça da situação ou do outro, dificuldade em aceitar os seus direitos, dificuldade em pensar de forma racional sobre si próprio, confundir assertividade com agressividade ou associar as respostas passivas à boa educação e atitude prestativa. As crenças irracionais relacionadas com desvalorização pessoal (e.g., “A minha opinião não conta.”) e o poder dos outros (e.g., “Em situações de conflito é mais seguro não me manifestar.”) podem igualmente contribuir para este tipo de resposta.

Imediatamente após uma resposta passiva, a reação habitual é a diminuição da ansiedade, uma vez que o indivíduo evitou um conflito potencial. Contudo, este pode também sentir-se culpado ou revoltado pelo resultado da situação ou ainda sentir autocomiseração ao perceber que permitiu que o interlocutor retirasse vantagem da situação.

No que se refere aos efeitos a longo prazo, frequentemente, a dificuldade de expressão em várias situações e com várias pessoas conduz a sentimentos de baixa autoestima, depressão e ansiedade excessiva em situações interpessoais. Normalmente, os indivíduos que utilizam respostas passivas tendem a ser encarados pelos outros como vulneráveis e facilmente manipuláveis.

Precisamente por serem alvos por parte dos outros, é comum estes indivíduos expressarem insatisfação com as suas vidas, assim como com as suas falhas em lidar com os outros. Para além disso, apresentam queixas somáticas de várias ordens, sendo as mais comuns as cefaleias e as queixas do foro gastrointestinal.

Inicialmente, os interlocutores que são alvo de respostas não assertivas, podem sentir algum pesar pelo facto da pessoa não conseguir expressar-se de forma direta em situações que consideram difíceis. Todavia, a continuação deste estilo de comunicação desencadeia sentimentos de frustração, ou mesmo revolta, por parte dos primeiros, uma vez que estes têm que adivinhar as opiniões do indivíduo. Aliás, a necessidade de tomar decisões difíceis, sem conseguir perceber a opinião do outro, chega mesmo a desencadear falta de respeito em relação à pessoa que se comportou de forma passiva.

2.2. Resposta agressiva

A resposta agressiva caracteriza-se pela atenção nos objetivos do próprio indivíduo numa dada situação e, consequentemente, pela ignorância ou desvalorização dos interesses ou direitos do outro. O indivíduo expressa as suas necessidades, opiniões e desejos de forma reivindicativa, ameaçadora, insultuosa e hostil. Estas respostas incluem: falar alto, interrupções e perguntas antes que o outro acabe de responder, excessiva utilização do eu (e.g., “O meu ponto de vista é…”), expressões de vanglória (e.g., “Nunca tive problemas com…”), expressão de opiniões como se fossem fatos (e.g., “Isto funciona do seguinte modo ….”), pedidos em forma de instrução, sarcasmos, acusações e culpabilização do outro.

Fundamental é, assim, dominar e ganhar em relação à outra pessoa. Para a elaboração de respostas agressivas, contribuem crenças de superioridade (e.g., “Eu sou melhor, eu sei como fazer…”), mas também de insegurança e medo (e.g., “Não se pode confiar em ninguém…”).

Imediatamente após responder de forma agressiva, o indivíduo pode experienciar alguma redução de tensão acumulada pela situação que desencadeou aquela resposta. Se a resposta agressiva permitiu que a pessoa conseguisse o que desejava, os sentimentos positivos são dominantes e contribuem para a manutenção deste estilo de resposta.

As pessoas que, habitualmente, utilizam um estilo de comunicação agressivo não assumem as consequências das suas ações.

Desta forma, a longo prazo, tendem a culpar os outros pela situação que desencadeou a resposta agressiva e desenvolvem mecanismos de alerta, esperando, constantemente, possíveis ataques por parte dos outros. Os sentimentos de autoculpabilização e vergonha são mais comuns nas pessoas que, habitualmente, não utilizam este estilo de resposta.

Estes indivíduos tendem a ser percepcionados pelos outros como intransigentes, coercivos e com falta de autocontrole. Inicialmente, podem conseguir o que querem, potenciando o medo nos outros, mas, a médio ou longo prazo, tendem a ser evitados e até desrespeitados pelos outros. O desrespeito manifesta-se de várias formas, entre as quais se encontra: a omissão de informação, a elaboração de comentários sarcásticos na ausência da pessoa, ou ainda por mostrar anuência com a pessoa para posteriormente realizar algo no sentido oposto. Em alternativa, a resposta agressiva pode provocar uma resposta semelhante por parte do interlocutor, com o risco evidente de escalada.

Como referimos, há pequenos reforços que, apesar dos efeitos indesejáveis a longo prazo, potenciam as respostas agressivas. A par destes, existem diversos fatores que contribuem para a verbalização de respostas agressivas: percepção ameaçadora das situações ou dos outros, crença de que a agressão é a melhor forma de confronto, utilização anterior de estilo passivo com maus resultados, dificuldade em pensar racionalmente sobre si próprio e dificuldade em desenvolver competências comunicacionais de assertividade.

2.3. Resposta assertiva

Em contraste com o comportamento não assertivo, passivo ou agressivo, a resposta assertiva envolve a defesa das opiniões do próprio, sem deixar de ter consideração pelo outro. O indivíduo expressa, assim, as suas necessidades, desejos, opiniões, sentimentos e crenças de forma direta e apropriada. Recentemente, Alberti e Emmons definiram assertividade como “a ação direta, firme, positiva – e, quando necessário, persistente – que promove a equidade nas relações pessoais. A assertividade permite agir tendo em vista os melhores interesses do próprio, defender-se sem ansiedade excessiva, exercer os direitos pessoais sem negar os direitos dos outros, e expressar honesta e confortavelmente os próprios sentimentos.”.

As respostas assertivas incluem: expressão direta de pensamentos e sentimentos, escuta do outro, elaboração de questões abertas que visam conhecer as opiniões e desejos do outro (e.g., “O que você pensa sobre…”), frases curtas e diretas, expressões iniciadas por eu, distinção entre fatos e opiniões (e.g., “A minha opinião …”) e sugestões e críticas construtivas que se centram na ação do outro e não na culpa excessiva.

Este estilo de resposta envolve não apenas o conhecimento dos direitos e responsabilidades do próprio e do outro, exigindo também que a pessoa esteja consciente das consequências resultantes da expressão da sua opinião naquela situação. É neste sentido que Slater (1990) considera a assertividade, simultaneamente, uma qualidade e um comportamento que exige competências interpessoais específicas, i.e., capacidade para expressar direitos, pensamentos e sentimentos sem interferir com os direitos dos outros.

Existe uma correlação positiva entre o estilo assertivo e a autoestima. Dito de outra forma, as pessoas que utilizam mais respostas assertivas possuem uma autoestima mais elevada. Algumas crenças centradas no controle e na responsabilização (e.g., “Posso escolher como me comportar.”, “Posso aprender com os meus erros.”) são determinantes para a formulação de resposta assertivas e, consequentemente, para a construção de uma autoestima satisfatória.

A par da autoestima, os indivíduos que, habitualmente, utilizam o estilo assertivo tendem a sentir mais controle sobre as suas vidas, possuem maior satisfação com os seus relacionamentos e conseguem alcançar os seus objetivos com mais frequência. Ao ser assertivo, o indivíduo assume mais responsabilidade sobre o seu próprio comportamento e consegue ser mais respeitado pelos outros.

Importa realçar que o comportamento assertivo é aprendido e situacionalmente específico. Daqui decorre que a pessoa aprende diferentes tipos de comportamento para diferentes situações. Poucos indivíduos são assertivos em todas as situações. A maioria considera mais fácil ser assertivo em uma situações (e.g., com amigos) do que em outras (e.g., figuras de autoridade).

2.4. Comparação dos três estilos

De uma forma geral, a resposta assertiva resulta em consequências favoráveis para as partes envolvidas. Mesmo nas situações em que os objetivos do indivíduo que utiliza o estilo assertivo não são completamente alcançados, esta sente-se melhor por ter expresso as suas opiniões. De igual forma, o interlocutor não tem necessariamente que concordar com o que lhe foi pedido/dito, mas sente que os seus direitos foram respeitados.

A grande diferença entre assertividade e os outros dois estilos de comunicação, passividade e agressividade, diz respeito ao uso e/ou abuso dos direitos de afirmação pessoal (Slater, 1990). A comunicação assertiva caracteriza-se pela coordenação das perspectivas do próprio e do interlocutor, pelo que os direitos envolvidos são sempre respeitados.

3. Tipos de resposta assertiva

Há muitas formas de ser assertivo. Dependendo do objetivo da pessoa numa situação particular, existem tipos de resposta mais adequados do que outras.

A descrição dos vários tipos de resposta assertiva não se revela uma tarefa fácil. Na literatura sobre assertividade, coexistem as mais diversas categorizações, chegando a existir designações distintas para mesmo tipo de resposta. Apresentam-se, a seguir, os cinco tipos de resposta assertiva mais comuns e seguidos por mais autores. São eles:

  • assertividade básica,
  • assertividade escalonada,
  • mensagem do eu,
  • asserção empática, e
  • asserção de confronto.

A assertividade básica envolve a simples defesa pessoal de direitos, crenças, sentimentos e opiniões. Por exemplo: “Desculpe, eu gostava de acabar de lhe explicar o tratamento.”. Quando a pessoa deseja demonstrar alguma sensibilidade, especialmente nas situações em que o interlocutor se pode sentir ofendido com a simples expressão de desejos ou sentimentos, a asserção empática surge como um tipo de resposta adequado. A asserção empática é constituída por duas partes.

Na primeira, a pessoa reconhece algo em relação ao interlocutor (e.g., tristeza) ou situação (e.g., pressão de tempo). Na segunda, descreve a sua situação, sentimentos, desejos ou crenças. Por exemplo: “Eu percebo que você não sente melhoras e que considera que este tratamento não é o mais adequado. Gostaria muito de lhe explicar o meu ponto de vista sobre a sua evolução e o plano de tratamento.” Note-se que a primeira parte, o reconhecimento da situação, não corresponde a uma concordância. A pessoa simplesmente reconhece os sentimentos, desejos, crenças ou situação do interlocutor.

A asserção empática é particularmente útil em situações em que o relacionamento com o outro é importante, ou quando se pretende reduzir as probabilidades de o interlocutor ser defensivo ou se sentir magoado. Este tipo de resposta facilita igualmente a escuta por parte do interlocutor, uma vez que este percebe que o seu ponto de vista foi considerado.

A assertividade escalonada é um tipo de resposta que pode ser utilizado quando uma resposta assertiva básica não produziu qualquer efeito no receptor. Nesta situação, o indivíduo pode, gradualmente, aumentar ou escalonar o grau de assertividade empregado (e.g., Nível 1: “Lamento, não tenho possibilidade de alterar a hora do tratamento de amanhã.”; Nível 2: “Como já lhe expliquei, não me será possível alterar o seu tratamento para outra hora.”; Nível 3: “Peço-lhe que não insista! Já lhe disse duas vezes, não consigo alterar a minha agenda de amanhã!”).

A assertividade de confronto é apropriada quando existem discrepâncias (e.g., as palavras do interlocutor contradizem o seu comportamento). Este tipo de resposta assertiva tem três partes:

  1. descrição objetiva do que a outra pessoa disse que faria;
  2. descrição do que a outra pessoa fez na realidade;
  3. expressão do que realmente pretende.

Por exemplo, “Disse-me que passaria a realizar 30 minutos dos exercícios todos os dias em casa. Tínhamos acordado que o seu plano de recuperação passava essencialmente pelo trabalho desenvolvido em casa. Esta semana, verifiquei que nunca realizou os exercícios. Como já lhe expliquei, na minha opinião, é muito difícil recuperar só com os tratamentos nos aparelhos aqui do ginásio. O que acha que o está impedindo de realizar os exercícios em casa?”. Quando as discrepâncias são confrontadas pela simples descrição das mesmas, a resolução dos conflitos é facilitada, uma vez que o interlocutor terá menos probabilidade de reagir defensivamente, porque não se sente atacado pessoalmente.

Este tipo de confronto é particularmente eficaz nas situações em que previamente foi efetuado um pedido assertivo de mudança de comportamento, com o qual o outro concordou, mas que acabou por não cumprir.

A mensagem do eu, em que o indivíduo assume a responsabilidade pelo que verbaliza ou sente, inclui a expressão de desejos (e.g., “Eu gostaria que você chegasse na horas para …”), sentimentos (e.g., “Quanto me diz que não quer fazer o tratamento, eu sinto-me …”) e asserções (e.g., “Quando chega atrasado, iniciamos as sessões depois da hora, o que atrasa todo o meu trabalho com os outros pacientes. Sinto que não está respeitando meu trabalho. Eu gostaria realmente que não voltasse a chegar atrasado.”). Este tipo de respostas, em que a indivíduo recorre à primeira pessoa do singular e tenta descrever, de forma concreta, o que pensa ou sente, produz efeitos positivos, sem atacar a autoestima da outra pessoa.

Para as situações em que existe agressividade ou persistência da parte do interlocutor, os autores que mais se têm dedicado ao estudo da assertividade propuseram vários tipos de resposta específicas, sendo de salientar:

  1. técnica de ignorar, que, como o próprio nome indica, consiste em ignorar o comentário agressivo ou insultuoso do outro e manter os seus objetivos (e.g., “Parece-me que está muito exaltado, acho melhor falarmos sobre este assunto mais tarde.”);
  2. nevoeiro, que se traduz pela aceitação da crítica negativa do outro, sem demonstrar intenção de mudar o comportamento que despoletou a crítica; e, finalmente,
  3. a mais conhecida de todas as técnicas assertivas, mencionada em todos os manuais, o disco arranhado. Este consiste em repetir, com tranquilidade e sempre da mesma forma, o ponto de vista pessoal, ignorando as interrupções ou provocações que possam surgir da parte do interlocutor.

4. Principais temáticas da assertividade

Os treinos assertivos abordam habitualmente todas ou várias das categorias que foram propostas pelos seus fundadores. Galassi e Galassi (1977) elencaram três grandes categorias da assertividade: expressão de sentimentos positivos, autoafirmação e expressão de sentimentos negativos. A primeira inclui: dar e receber elogios, elaborar pedidos, expressar afeto e iniciar e manter uma conversa. A área da autoafirmação abrange as temáticas de defesa de direitos legítimos, recusa de pedidos e expressão de opiniões pessoais. Finalmente, a expressão de incómodo e desagrado e a expressão de raiva justificada são as temáticas incluídas na categoria da expressão de sentimentos negativos. Apresentamos a seguir a descrição das categorias propostas por Galassi e Galassi.

Autoafirmação

  • Defender direitos legítimos
  • Recusar Pedidos
  • Expressar opiniões pessoais

Expressão de sentimentos positivos

  • Dar e receber Elogios
  • Elaborar Pedidos
  • Expressar Afecto
  • Iniciar e manter uma conversa

Expressão de sentimentos negativos

  • Expressar aborrecimento
  • e desagrado justificado
  • Expressar revolta justificada

Algumas destas categorias foram igualmente consideradas por Jakubowski e Lange (1978). Estes autores concederam mais destaque à temática da elaboração de pedidos, particularizando a elaboração de pedidos para informação e clarificação, pedidos para assistência e ajuda e, finalmente, pedidos de mudança do comportamento do outro.

Todas estas temáticas requerem treino específico, uma vez que, em cada uma delas, podem estar envolvidas competências distintas. Assim, é prática comum os treinos de assertividade abordarem as várias temáticas de forma separada, incluindo mesmo sessões específicas para cada uma delas.

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ricardojustinodesouzaBruna Celeghini Guirado Autores do comentário mais recente.
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ricardojustinodesouza
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Que artigo incrivelmente bem escrito e bem estruturado. Entender a origem da Assertividade e as técnicas para aplicá-la é, sem sombra de dúvida, uma leitura atual digna de ser contemplada por todas aquelas pessoas que desejam desenvolver a competência de negociação. Parabéns Francisco Guirado, pelo brilhando texto!!!

Bruna Celeghini Guirado
Membro

incrível!!

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